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O que a criptografia protege na sua conversa (e o que ela não protege)

Criptografia de ponta a ponta é real e é forte, mas cobre menos do que a maioria das pessoas imagina. Os cinco buracos que continuam abertos, e o que dá pra fazer em cinco minutos.

·6 min de leitura
Dois balões de mensagem, o de cima fechado com um cadeado verde

"Suas mensagens são protegidas com criptografia de ponta a ponta."

Você já leu essa frase dezenas de vezes, provavelmente numa tela que passou rápido. Ela é verdadeira em vários aplicativos, e mesmo assim quase todo mundo entende errado o que ela promete.

A confusão é cara. Tem gente que acha que está protegida e não está, e tem gente que evita conversar sobre coisas normais achando que tudo é devassado. Vale entender o que essa frase cobre de verdade.

O que criptografia de ponta a ponta significa

Sem jargão: as chaves para abrir a mensagem existem só nos dois aparelhos que conversam.

A mensagem sai do seu celular já fechada e só é aberta no celular da outra pessoa. Ela passa pelo servidor da empresa, mas passa como um envelope lacrado. Se alguém invadir esse servidor, ou se a própria empresa quiser ler, ou se um juiz mandar entregar, o que existe ali é um monte de bytes embaralhados que ninguém consegue abrir.

É uma proteção forte e real. E ela resolve um problema específico: impedir que o meio do caminho leia. Só isso. Todo o resto continua valendo, e é aí que mora a confusão.

Duas frases parecidas que não são a mesma coisa

Antes de seguir, vale separar três coisas que aparecem escritas de um jeito parecido.

"Criptografia em trânsito" quer dizer que a mensagem viaja fechada pela internet, mas chega aberta no servidor. Protege contra quem estiver no meio do caminho, tipo o wi-fi do café. Não protege contra quem tem o servidor. Praticamente tudo na internet tem isso hoje, inclusive este texto que você está lendo.

"Criptografia em repouso" quer dizer que os dados ficam guardados fechados no disco do servidor. Protege se alguém roubar o disco. Não protege contra a empresa, porque a chave é dela.

"Criptografia de ponta a ponta" é a única das três em que a empresa não tem a chave.

As três são boas e nenhuma substitui a outra. Mas só a terceira significa "nem eles conseguem ler", e é comum ver as duas primeiras descritas com um entusiasmo que sugere a terceira.

O que a criptografia de ponta a ponta não protege

Aqui está a parte útil.

1. A cópia de segurança. Este é o buraco maior, e o menos conhecido. Vários mensageiros salvam o histórico da conversa numa nuvem pessoal, pra você não perder tudo quando trocar de aparelho. Se essa cópia não for ela mesma fechada com uma chave que só você tem, ela é uma versão legível de tudo o que a criptografia protegeu no caminho. A conversa vai lacrada até o celular e depois é copiada aberta pra um servidor de outra empresa.

Vale conferir isso hoje, no aplicativo que você usa. Costuma estar em Ajustes, em algum lugar chamado "conversas" ou "backup", e costuma vir desligado ou sem senha.

2. Os metadados. A criptografia esconde o conteúdo, não a existência da conversa. Continua registrado quem falou com quem, a que horas, com que frequência, de onde, e o tamanho do que foi enviado.

Isso parece pouco e não é. Saber que uma pessoa trocou quinze mensagens com um advogado criminalista às duas da manhã diz bastante, sem ler uma linha. Metadado é o tipo de informação que quase nenhum aplicativo promete não guardar.

3. A outra ponta. Criptografia é uma promessa sobre o caminho, não sobre a pessoa. Ela pode tirar print, mostrar a tela pra alguém, deixar o celular destravado na mesa ou fazer aquela cópia de segurança aberta do item 1. Metade da sua privacidade numa conversa é uma decisão de outra pessoa, e nenhum recurso técnico muda isso.

4. A tela de bloqueio. Se a prévia da mensagem aparece no celular bloqueado, qualquer pessoa que passar pela mesa lê. É a falha mais comum e a mais fácil de resolver: nas notificações, desligue a prévia do conteúdo.

5. O que o aplicativo não fecha. Este é sutil. Um aplicativo pode ter criptografia de ponta a ponta em uma parte e não em outra. É comum a foto ir fechada e o texto não, ou o contrário. Ou a mensagem ir fechada e a cópia na nuvem, não. "Tem criptografia de ponta a ponta" é uma frase que pede a pergunta seguinte: em quê, exatamente?

As mensagens que se apagam sozinhas

Recurso ótimo, entendido errado com frequência.

Mensagem temporária serve pra reduzir o acúmulo: menos histórico guardado é menos coisa pra vazar se um dia o aparelho for perdido ou invadido. É higiene, e vale a pena ligar.

O que ela não faz é apagar o que já foi copiado. Print continua existindo, foto da tela feita por outro celular continua existindo, cópia de segurança feita antes do prazo continua existindo. Mensagem que some é uma faxina combinada entre pessoas de boa-fé, não um cofre.

Como conferir, em qualquer aplicativo

Cinco perguntas, em ordem de importância:

  1. A cópia de segurança é fechada com uma chave minha? Se a resposta for não ou "não sei", esse é o primeiro lugar pra mexer.
  2. A prévia da mensagem aparece na tela bloqueada? Desligue.
  3. A criptografia vale pra tudo, ou só pra parte? Procure na página de segurança do aplicativo. Se não disser claramente, assuma que é só parte.
  4. Dá pra conferir com quem estou falando? Aplicativos sérios oferecem um código de segurança que você compara com a outra pessoa. Se existe, é bom sinal, mesmo que você nunca use.
  5. O código é aberto e passou por auditoria independente? É a única forma de a promessa ser verificável por alguém que não seja a própria empresa. Sem isso, você está confiando num texto de marketing, e este texto aqui também é um.

O que fazer hoje, em cinco minutos

Nenhuma dessas quatro é técnica, e as quatro juntas protegem mais do que trocar de aplicativo.

Como está isso no Keenz

Falando da nossa casa, com a régua deste texto aplicada em nós mesmos.

Nas Conversinhas, a foto, o vídeo e a nota de voz saem do seu aparelho já fechados, com uma chave por destinatário, e são abertos só no aparelho de quem recebe. O mesmo vale para os desenhos do Acolá. Nesses casos a promessa é a do começo deste texto: nem nós conseguimos abrir.

O texto da mensagem não. Ele é guardado no nosso servidor de forma legível, protegido por regras de acesso: só as duas pessoas da conversa conseguem ler pelo aplicativo. É uma proteção de verdade, e é a mesma coisa que quase todo serviço faz. Mas não é criptografia de ponta a ponta, e depois de escrever cinco seções cobrando clareza dos outros seria feio arredondar a nossa.

Fechar também o texto está no nosso caminho. Quando estiver pronto, vai estar escrito aqui, com data.

Enquanto isso, o que vale pra nós vale pra qualquer aplicativo, inclusive este: desconfie de "criptografia de ponta a ponta" sem complemento. A pergunta certa é sempre "em quê?".

Uma rede social que não pede a sua atenção o dia inteiro

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